Arquivo para julho \14\UTC 2011

A liberdade que a vida tem que ter

Não sei o por quê, mas de vez em quando surgem alguns pensamentos, no meio do dia, das atividades regulares da vida, que me trazem sensações semelhantes ao que sinto quando surfo.

O surf é simples, e a vida precisa ser mais simples. Às vezes nos perdemos em meio à complexidade que o sistema criou para que a vida se torne possível nas grandes cidades. Tudo hoje é baseado em processos, fluxos, senhas, regras, leis, padrões, sequências, dinheiro, e tudo isso surge para colocar ordem e criar um ambiente “amigável” e habitável para todos, com base em uma “média” do que todos querem e necessitam. E é aí que mora o problema, pois as pessoas corretas, livres, que tem noção do que é certo e errado e não prejudicam ninguém, e que nasceram e criaram um laço afetivo com outras pessoas dentro deste sistema (família, amigos…), ficam presas e limitadas de certa forma, e não consegue ser livres como querem, como precisam, como a vida tem que ser.

Restam-nos duas opções. Ou largar tudo, sistema e todos os laços afetivos criados e seguir uma vida em outro lugar, mas livre dos padrões urbanos, o que pode trazer uma vida muito melhor, mas em partes egoísta, já que deixaremos certos laços para trás, ou fazer parte do sistema, e seguir o fluxo das coisas, fazendo parte do “sistema humano de vida tradicional”, como vem sendo feito há séculos na maioria das sociedades.

Há duas opções, e a melhor é: não seguir nenhuma delas. Essa é a terceira opção, que julgo a melhor (claro, lembrando sempre que a melhor não significa ser a ideal, a perfeita). É viver fazendo parte de um sistema, de regras, de modo que o sistema acredite que você faz parte dele, e quando há possibilidade, você quebra todo o padrão, e vive da forma que achar que é certa, desde que não prejudique ninguém. E quebrar o padrão não significa se revoltar e ir contra as regras, e mostrar para todo mundo que você é diferente, revoltadinho. Significa ser livre.

O surf de certa forma é isso, você tem um padrão natural, e “criado” pelo ser humano, a seguir (ter uma prancha, estar na praia, atravessar a arrebentação…), mas você surfa do jeito que quiser, com a prancha que quiser, para o lado que quiser, nas condições que quiser, com a roupa que quiser, a hora que quiser, desde que respeite a vida do outro e não prejudique a vida de ninguém.

É complicado de explicar isso, mas a vida, para quem é realmente surfista, de alma, é mais fácil e simples para ser livre, sem ser escravo do sistema, preso por regras, e sem ser revoltadinho, quebrando as regras e prejudicando os outros.

Não concordar com um sistema não exige que você o destrua, mas se for inteligente, você dá um passo para trás e fica em uma posição que o permite observá-lo, entendê-lo, e compreender que não fazemos mais parte dele, que podemos seguir seu fluxo para ter uma harmonia social para viver, mas não viver na harmonia que o sistema criou. Aí que surge um significado maior para a vida. É como estar sentado na prancha esperando uma série.

Não deixe que o sistema te escravize a ponto de você tornar os padrões sociais como seus padrões para viver. Carros melhores, roupas de marca, coisas, coisas, coisas… Tudo isso fica quando você for.

Surf é liberdade. E a vida tem que ser livre, tem que ser amor.

Aloha!